
Um passeio pela avenida Paulista num sábado ensolarado garante uma visita a um casarão antigo que foi transformado em abrigo para cães abandonados. Durante o percurso, é possível também conhecer alguns pedreiros que recolhem, de sexta a segunda, os entulhos gerados pela reforma de um prédio. Eles enchem uma, duas, três, quatro caçambas. Há, pelas calçadas da avenida paulistana, jovens skatistas tentando vencer os obstáculos da física. Mas nada se compara a conversa com a simpática artista plástica Tânia Aparecida Félix, que, ao ser questionada sobre sua idade, confessa sem pensar: “vou mentir”. Solta, então, um número qualquer: 62 anos. “Por que eu vou falar uma idade que não aparento?”, questiona-me. Nascida na Bahia – ela diz que o nome da cidade é Nazaré das Farinhas -, Tânia já andou bastante pelos cantos do Brasil. Começou a vida fazendo arte, literalmente: aos sete anos, era tão peralta que ganhou o apelido de “arteira”. Aos nove, veio para São Paulo. Aqui, foi enfermeira, dama de companhia, modista (“costura fina para madames do jardim Paulista”), banqueteira e cozinheira. Hoje, ela vende seus quadros ao lado de um dos pontos de ônibus da Paulista. “Não pode vender quadros aqui, mas o meu santo me segura!”, garante. Tânia pinta colheitas de café e de cacau, plantações de cana, imagens de senzala…um Brasil antigo, rural, esquecido e que diz muito da identidade brasileira. “Minha pintura tem de vir da minha mente. É criação, sabe?”, conta. Há algum tempo, ela vendia suas ‘criações’ em frente à praça D. José Gaspar, em frente ao número 134, diz, como quem quer mostrar que sabe todos os detalhes de cor. Naqueles dias, ela se vestia de baiana antes de chegar para trabalhar. Foi assim que ganhou o segundo apelido na vida – baiana. “Mas o sotaque de baiana eu só pego quando vou pra lá!”, adverte. Com bastante orgulho, ela lembra também das entrevistas que deu aos antigos apresentadores de televisão Airton Rodrigues e Clarice Amaral. Tanta fama causa inveja, claro. Um vendedor de quadros similares aos do pintor Romero Britto interrompe nossa conversa. E dispara: “não tira foto dela não, vai queimar seu filme”. A baiana simplesmente não dá ouvidos. “Eu sou feliz”, garante. Sua única tristeza é a falta de valorização da cultura brasileira pelos próprios brasileiros. Confiante, ela conta um segredo: quer marcar um encontro com o presidente Lula. “Tô na luta, mas não vou pedir nada. Quero cumprimentar ele e a dona Marisa e levar uma obra minha”, diz. Nada mais justo.
(Foto: Theo Martins)


1 Comentário
Junho 15, 2009 ás 10:55 pm
Que texto delicioso, Bia!
Consegui achar uma conterrânea do Vampeta, aquele que jogou no Corinthians. Ele é nascido em Nazaré das Farinhas…
Saudades dos papos no Asterix.
Boa semana!
Bjo
Obs.: Peço um grande favor pra ti. Por conta de um problema operacional, meu blog ficou fora do ar por uns bons dias e agora está de volta, com uma pequena mudança no endereço. Estamos agora no anivelde.org/blogdozangari. Por favor, anote aí e atualize na sua lista! Obrigado.