Quando você entra em um lugar em Atlanta – seja uma loja, uma estação de metrô, uma grocery store ou um Starbucks – invariavelmente escuta a seguinte indagação:
- Hi, how are you doing today?
Na mesma cidade, nenhum pedestre é simpático ao extremo ao ser parado na rua para ajudar estrangeiros na tarefa de se localizar. Cortada por gigantescas highways, Atlanta aparentemente só tem vida mansa em downtown. Há pouca chance de você ver movimento perto da CNN Center ou do Georgia Aquarium. Pedestres são raros. Mas nos bairros mais distantes, e nas próprias highways, há trânsito pesado. As pessoas aparecem, como se estivessem esperando sua vez de entrar numa peça de teatro, e entrassem todas de uma vez.
Atlanta é uma cidade limpa demais, miscigenada demais, cheirosa demais. Não há um lixo no chão, nem bituca de cigarro, há muitos porto-riquenhos, peruanos, mexicanos, nigerianos, chineses, japoneses e há muitos cheiros. Cheiro de café, cheiro de perfume, cheiro de árvore quando balança, cheiro de canela, cheiro de begel. Café da manhã, em Atlanta, como em todas as cidades norte-americanas, pede ovos, bacon, panquecas com geléia, café, leite, suco de laranja, begel e, claro, muffin. O almoço e o jantar pedem sempre gordura e pimenta. Muita pimenta.
Atlanta também é a cidade da Georgia Tech, universidade estadual da Georgia, cujo campus ostenta as famosas fraternidades norte-americanas – delta beta gama e variáveis. É um município tomado pela pressa inerente aos filhos e não filhos do Tio Sam, que repetem o filme nova-iorquino: tomam cafés aguados e com leite em copos de papel andando pela cidade para chegar ao trabalho. Mas Atlanta também é uma cidade que tem, em sua periferia, personagens dignos de nota: um cawboy já idoso, com camiseta rasgada e calça jeans, de chapéu, mascando palha, observa o movimento da rua; dois quarteirões depois, uma Barber Shop (nome escrito em néon colorido) estampa o seguinte aviso em sua fachada: I will vote for Obama.
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Benson Ufot é um nigeriano que trocou seu país pela América, como dizem os norte-americanos. Ele conta que veio aos EUA para estudar há quinze anos – o tempo lhe permite entender um pouco da política americana. Surpreso ao saber do meu interesse pelas eleições – how do you know we got elections around here now? -, ele aumenta o som do seu rádio. “Obama is the weakest candidate”, diz o locutor. Benson rebate. “Ele diz isso apenas porque o Obama quer melhor a vida da classe média e dos pobres”, afirma. Negro, Benson é um dos taxistas da cidade de Atlanta que possuem táxis amarelos. Há brancos e pretos também. “Eu vou votar no Obama porque ele sabe dialogar com as pessoas. É um diplomático. Se o Obama conversar com esse cara aí do rádio, em dois minutos ele fala outra coisa”, aponta. Benson explica que o seu país está em crise financeira porque o presidente George W. Bush gastou todo o dinheiro com a guerra do Iraque. “I’m tellin’ ya, a lot of people are voting for Obama. Whenever you get a republican president, he spend all the money in wars. People are tired of that”, diz. Saudosista, Benson lembra de Bill Clinton, ex-presidente de seu país, porque em seu governo as pessoas não tinham medo de gastar. “Elas tinham segurança. Hoje todo mundo segura o dinheiro”, suspira. A sensação é de que Benson, em vez de apostar na vitória de Obama, torce mais para que McCain, candidato republicano à presidência, não ganhe as eleições. “There you go! If McCain wins, we will get Bush all over again!”.
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Em seu táxi branco, Angelique toma uma alternativa ao trânsito das highways, que parece ficar pior de manhã e aos finais de tarde. O trânsito, aliás, é motivo para que Angelique, norte-americana de cor negra cujas unhas são enormes, nascida em Chicago e ex-residente do Tennessee, fique verborrágica. A começar pelo traffic rage, termo usado por ela para designar o estresse pós-trânsito. “Para acabar com o trânsito, o governo tem que intervir mais. Você é solteiro? Então não pode ter um carro grande. Só pode ter carro grande que consome muito combustível quem tem mais de doze filhos! Controla o trânsito e polui menos”, dispara. Para ela, se há carros demais em Atlanta, o transporte público é escasso. Há dez anos, conta, a prefeitura quis ampliar o Marta (Metropolitan Atlanta Rapid Transit Authority) aos bairros mais distantes da cidade. “Os moradores não quiseram, ficaram divididos por uma história de que ia aumentar a criminalidade com o meio de transporte, e os governantes não fizeram nada. Hoje está todo mundo lá pedindo o Marta pra vir trabalhar”. Soa ridículo, falo a ela. “Thank you!”, ela berra, como se esperasse uma réplica há anos. Políticos não são ruins só em seu pais, diz Angelique, eles aprenderam com um mestre. Todos eles beberam da mesma fonte. Digo a ela que fico imaginando qual seria a fonte, e ela ri. “A maioria dos políticos são homens. Vou te contar uma coisa. Há sempre um homem querendo roubar meu lugar na fila, no meu ponto de táxi. Hoje, pela primeira vez, um deles, ao ouvir que eu não sairia do lugar em que estava, me peitou. Eu tive que chamar a polícia. Se eu estivesse em Chicago, teria saído do carro e metido porrada nos dois. Mas eu não quero ser presa, não é?”, conta. Ao chegarmos em downtown, o trânsito diminui. “Em downtown só há vias de mão única. Foi a maneira que eles encontraram de diminuir o trânsito. Por isso é tudo vazio, assim”. Naquele momento, na avenida em frente ao Georgia Aquarium, não havia carros. “O que eu mais pego de passageiro é homem que me diz que eu deveria estar em casa lavando e passando. Nós ainda temos isso na América”, reconhece.





1 Comentário
Maio 19, 2008 às 10:45 am
Olá e parabéns pelo blog tão interessante. Li tudo tudinho.
saudações do deserto do saara!