Às dez horas da manhã de uma quarta-feira úmida em São Paulo, seu Antônio está sentado no banco de couro vinho de sua barbearia, olhando para si mesmo através do espelho, localizado à sua frente. Mãos apoiadas no assento, ele veste o mesmo uniforme de todos os dias: um avental azul royal, uma calça de linho preta, meias pretas e um par de chinelos Rider preto. De onde está, ele observa também os seus dois passarinhos, colocados logo na entrada da barbearia, no topo da parede, mas não consegue enxergar os outros três localizados na parte de trás da barbearia; pode ver sua vitrola, enorme, e, ao seu lado, uma estátua pequena de São Jorge, seu anjo protetor; pode, ainda, lembrar de seu sócio que lhe deixou uma herança nada agradável há 41 anos: uma estrutura de metal quebrada, acoplada na parede, cuja função em outras épocas era de receber cuspes das pessoas. “Você cospe e dá uma descarga e o cano leva pra pia, aí do lado”.
Mas o silêncio matinal no qual seu Antônio se encontra naquele momento é interrompido por uma jovem que passa em frente ao local, e grita: “Bom dia, seu Antônio!”. Ele meneia a cabeça para baixo, esboça um sorriso e volta a se olhar no espelho. Enxerga um homem que beira os sessenta anos, com a barriga levemente saliente, bigode e cabelos grisalhos, com cara, temperamento e time de italiano – o Palmeiras –, mas descendente de portugueses. É raro encontrar o barbeiro trabalhando pelas manhãs. Mais raro ainda é encontrá-lo assim, parado. Durante os 28, 30 ou 31 dias do mês, seu Antônio atende uma média de 200 clientes, que o procuram para cortar o cabelo, aparar a barba ou limpar totalmente o rosto. Estes serviços lhe rendem, mensalmente, R$2.000,00. Depois de ir ao banco – irritado – para pagar o boleto do aluguel de sua barbearia, os R$900,00 restantes têm um destino: uma gaveta em sua casa. Antônio Rodrigues, 64 anos, 52 deles dedicado ao ofício e 41 vividos diariamente naquele ambiente, casado há 33 anos com Maria e pai de duas filhas, odeia três coisas na vida: governo, imobiliária e banco. “Deixei de ser trouxa”, começa sua explicação, “vou dar minha merreca pra esses boçais? Eu tenho cara de magnata? De banqueiro? O que eu tenho é cansaço no lombo, filha”, setencia. Seu Antônio enumera inúmeras justificativas à sua repulsa. “Trabalho pela arte de cortar cabelo. Eles não trabalham e tiram o dinheiro da gente. Quem trabalha nessa vida não fica rico; vive”, diz. Ele lembra da história de uma agência do Bradesco localizada na rua Alfonso Bovero, na Pompéia, perto de sua casa. Há algum tempo, velhos e crianças se encontravam em frente ao lugar para andar de bicicleta e tomar sol. “Os banqueiros viram isso e cimentaram tudo. O que ficou? O trilho pra levar o dinheiro no coche”. Seu Antônio sente falta disso: da época em que era criança, e que brincava casa de seus pais, na rua Rodésia, na Vila Madalena. Vaqueiro, já que naquela época a rua Rodésia era puro mato, Bernardo levou o filho à barbearia de um amigo porque não conseguia pagar mais a escola. O pequeno Antônio precisou aprender a cortar cabelos, sem ter vontade. “Mas nós erámos felizes. Dormíamos com a porta aberta, sabe? Não existia a palavra ladrão. Existia amor e vitalidade”, recorda.
O barbeiro já teve conta em três bancos: Bamerindus, Itaú e Nossa Caixa. Odeia os três. Invariavelmente, os banqueiros são, para seu Antônio, “malditos”, “boçais”, “movidos à ganância” e “dementes”. “Você acha que eu vou dar o meu suor pra eles? Não sou trouxa!”. Para ele, o método de tortura aplicado no filme Tropa de Elite, de José Padilha – ele guarda uma cópia pirata numa gaveta de sua barbearia – se adequariam bem aos banqueiros. E aos bandidos, claro. “O ser humano é mentiroso. A verdade é que as pessoas não prestam. Não se salva uma pessoa na terra”, sentecia novamente. A forma de pagamento na sua barbearia é uma só: dinheiro vivo. “O que eu já peguei de cheque sem fundo…e os caras do banco podiam ao menos dizer: não, o idiota te passou um cheque sem fundo? Nós vamos te dar o dinheiro e ir atrás dele. Mas não, você volta pra casa sem dinheiro”, diz.
Seu Antônio também não tem nenhum tipo de afeto pelo “Sapo Barbudo”, ou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a quem cobra: “como não sabia de nada? Você é presidente, tem que saber mais que o povo!”. Gosta de Paulo Maluf, ex-prefeito de São Paulo e conhecido por suas obras superfaturadas, porque ele “rouba trabalhando”. “Esses que tão aí agora só tiram do imposto”, diz. Ama o Palmeiras. Na sua barbearia, há três quadros do time, um de 1993, outro de 1970 e outro de 1965, à época da despedida do “Ademir da Guia”, maior ídolo da história do time. Enquanto trabalha, escuta rádios que noticiam esporte. No dia 31 de outubro, prometeu que se o Flamengo fizesse um gol contra o Corinthians em um jogo do Campeonato Brasileiro, ele soltaria fogos, muitos fogos. “Deixa o Mengo fazer um gol pra você ver!” (o Flamengo venceu de virada, por 2 a 1).
Ao final de um dia cansativo, quando o relógio registra aproximadamente dez horas da noite, seu Antônio dobra uma toalha, guarda seus instrumentos de trabalho e troca seus passarinhos. Preocupado, ele afirma não ser uma pessoa assim, que fala palavrões e se revolta. “Eu tenho sentimento, minha filha. Não sou 100% assim. É que tudo isso me revolta”, confessa. Lembra da morte de seu irmão, Nelson Rodrigues. Explica que há três espécies de passarinhos ali: canarinho, curió e colarinho. E, em tom surpreso, como quem se mostra indefeso mas quer se mostrar homem – e vivido, já que a idade traz uma sabedoria única nesse mundo – ele diz, referindo-se às varizes estouradas em sua perna, e ao medo de ir no médico: “Eu tenho medo da dor. Mas quem não tem?”.
(Publicado na revista Getulio desse mês)



3 Comentários
Novembro 7, 2007 ás 11:55 am
Bia!!
Amei. Tenho certeza que vai ser o início de algo muito bom….
Beijinhos
Novembro 13, 2007 ás 3:28 pm
Bí
Adorei o texto!! Continuarei lendo os próximos…..
E o nosso jantar?
Saudades
Bjs
Má
Novembro 22, 2007 ás 9:53 am
não tem mais artigos, não? foi tão bom este primeiro!!! faz mais, vai!