Pensando ontem durante o trajeto da volta para casa, cheguei à conclusão de que São Paulo tem vida própria. É um ser pensante que se locomove, age e tem sentimentos. De forma indefinida, pode-se dizer que é uma gosma cinzenta e transparente que habita as padarias e suas fruteiras coloridas, os cines privês do centro, as linhas laranjas de ônibus, a galeria Olido e os puteiros da Augusta.
Outro dia encontrei São Paulo nos vagões do metrô lotados, na fila da Caixa Econômica e no café melado que uma senhora vende na avenida Paulista, juntamente com bolos de todos os sabores. Fiquei sabendo que ela esteve nas ruas do centro velho, tentando ganhar espaço entre os pedestres, os repentistas, os homens-placas e os evangélicos que pregam com fervor de fim do mundo.
No municipal, outro dia, avistaram São Paulo também. E perto de cada paulistano cansado, lá pelas dez da noite, em pontos de ônibus espalhados por todos os cantos. No prédio do Copan, nos helipontos, no hotel Exelcior, nas cantinas do Bexiga, nas ruas charmosas da Mooca, na Liberdade, nas ruas baladas da Vila Olímpia (ou da Vila Madalena, tanto faz), na fileira de mendigos que dormem em calçadas ou nos grupos de amigos que bebem na do lado – São Paulo esteve presente em todos esses momentos recentemente. Os executivos engravatados, acompanhados de suas secretárias bilíngües, trombaram com São Paulo lá pelas bandas da Berrini.
A empregada doméstica Sandra, que mora no bairro da Pedreira, zona sul, acho, também. E o seu Djair, segurança de um prédio do Morumbi, viu São Paulo passeando lá por Paraisópolis – estava triste, cabisbaixa, disse seu Dejair. O dono da (quase extinta) quitanda na Vila Formosa, zona leste, observou São Paulo escolher calmamente frutas e legumes, ensacá-los e levá-los para casa. Nas feiras livres, ela está sempre ali, esperando uma fruta cair no chão. Já o que espera no Ceagesp todos os dias de manhã é uma lasca de verdura. Nos redutos indies da Augusta, no forró de Pinheiros e no samba da Vila Maria, lá está ela, dançando, acompanhando cada ritmo. Ritmo, aliás, é o que mais tem: um gingado brasileiro único, de quem chora sofrendo e comemora chorando.
São Paulo amanhece às 7h com os passageiros de um polêmico ônibus fretado que passa pela região da avenida Paulista. Nos caminhões que cruzam os lugares permitidos, também – a diferença é que a companhia, o motorista, não dorme. César, porteiro de um prédio na zona oeste, é acompanhado dela todas as noites, quando passa a madrugada escutando música sertaneja. No Pacaembu, no Palestra Itália, no Morumbi, no Canindé: é corintiana, palmeirense, são-paulina e da portuguesa. Acompanha quem é ambulante: vende doces, pilhas, CDs piratas e quinquilharias em barracas ou nos ônibus. Esteve em todo e qualquer engarrafamento dos últimos anos – xingando e buzinando, claro.
No rosto de cada habitante, São Paulo fez investidas cirúrgicas, moldando a velhice, a juventude. Em cada assalto, está ali. Em cada ronco de estômago vazio também. É preciso entender que ela não é boa, nem é ruim. É São Paulo, apenas. E há tantos lugares por onde esteve, está e estará que fica difícil elencá-los. São Paulo se locomove com uma rapidez maior que a da velocidade da luz, integrando-se e diluindo-se entre os prédios, os carros, as ruas, as bicicletas e as motos. Entre os subterrâneos do metrô e os vãos dos terminais de ônibus. Em tudo que pulsa vida, São Paulo pode ser encontrada. Todos os dias, a qualquer hora. São Paulo, esse monstro cinza que amamos e odiamos num só instante. São Paulo, que já não é mais fã de garoa.



