Julho 7, 2008

A coxinha e a fanta

 

Há muitas cidades dentro de São Paulo. Numa viagem até a Vila Prudente, zona leste, por exemplo, é possível conhecer lugares que você nunca imaginou encontrar no município que mora há exatos 23 anos. Também dá para reparar em avenidas que, de tão feias, parecem ser de outra São Paulo, aquela, que sempre está distante dos olhos. Exemplo: o viaduto da Avenida do Estado. Na mesma viagem até a Vila Prudente, uma estação nova de metrô: a estação Imigrantes, cujo nome já ouvi diversas vezes anunciado por uma operadora do metrô, mas cujas instalações nunca tinha visto. Lembra a estação Sumaré, aquela que quando olhamos dá até para dizer: cidade bonita, essa.

 

Uma visita até a Vila Prudente garante conversas típicas da periferia, conversas com as quais nossos ouvidos já estão acostumados, mas que se recusam a ouvir, como num protesto. “Um aluno nosso, do ano passado, roubou e foi parar na Fundação Casa. Assalto à mão armada”, relata a diretora da EE Olga Benati, escola de ensino fundamental e médio localizada na rua Ibitirama, 1412. “Uma mãe de aluno nosso tirou o filho da escola alegando que ele ia voltar para o Norte, mas um mês depois encontramos o menino andando de bicicleta na rua. Ele, que tem 12 anos, parou de estudar para trabalhar num lava rápido”, continua. A favela da Vila Prudente, na qual um barraco é vendido por R$ 13 mil, segundo o jornal O Globo do final do ano passado, é uma das comunidades mais atendidas pela EE. Ali, no colégio, nada muito novo: as paredes um pouco pichadas, o dinheiro é escasso e o cheiro do prédio lembra o das subprefeituras, ou qualquer prédio de serviço público paulistano: uma mistura de café passado desde manhã e melado de açúcar, chão um tanto sujo e, há quem diga não ter visto na escola, cigarro.

 

Viajar até a Vila Prudente traz algumas dúvidas. Exemplo: como deve ser morar na beira da marginal Pinheiros? Uma resposta que apenas os funcionários do Jockey Club, habitantes de casinhas semi-verdes na beira da marginal, que colocam sua roupa para secar na janela, de frente para o rio, podem responder. Mas um motorista de táxi da cooperativa Serv-táxi tem outra, tão interessante quanto: como é possível uma coxinha e uma fanta custarem R$ 3,50 na Vila Prudente e apenas R$ 1,50 em Pinheiros? Indagação que poderia ser solucionada somente pelo dono da vendinha num dos quarteirões da mesma rua Ibitirama, que, aparentemente, não estava no local.

 

(Foto: O Globo)

Maio 15, 2008

Atlanta

 

Quando você entra em um lugar em Atlanta – seja uma loja, uma estação de metrô, uma grocery store ou um Starbucks – invariavelmente escuta a seguinte indagação:

 

- Hi, how are you doing today?

 

Na mesma cidade, nenhum pedestre é simpático ao extremo ao ser parado na rua para ajudar estrangeiros na tarefa de se localizar. Cortada por gigantescas highways, Atlanta aparentemente só tem vida mansa em downtown. Há pouca chance de você ver movimento perto da CNN Center ou do Georgia Aquarium. Pedestres são raros. Mas nos bairros mais distantes, e nas próprias highways, há trânsito pesado. As pessoas aparecem, como se estivessem esperando sua vez de entrar numa peça de teatro, e entrassem todas de uma vez.

 

Atlanta é uma cidade limpa demais, miscigenada demais, cheirosa demais. Não há um lixo no chão, nem bituca de cigarro, há muitos porto-riquenhos, peruanos, mexicanos, nigerianos, chineses, japoneses e há muitos cheiros. Cheiro de café, cheiro de perfume, cheiro de árvore quando balança, cheiro de canela, cheiro de begel. Café da manhã, em Atlanta, como em todas as cidades norte-americanas, pede ovos, bacon, panquecas com geléia, café, leite, suco de laranja, begel e, claro, muffin. O almoço e o jantar pedem sempre gordura e pimenta. Muita pimenta.

 

Atlanta também é a cidade da Georgia Tech, universidade estadual da Georgia, cujo campus ostenta as famosas fraternidades norte-americanas – delta beta gama e variáveis. É um município tomado pela pressa inerente aos filhos e não filhos do Tio Sam, que repetem o filme nova-iorquino: tomam cafés aguados e com leite em copos de papel andando pela cidade para chegar ao trabalho. Mas Atlanta também é uma cidade que tem, em sua periferia, personagens dignos de nota: um cawboy já idoso, com camiseta rasgada e calça jeans, de chapéu, mascando palha, observa o movimento da rua; dois quarteirões depois, uma Barber Shop (nome escrito em néon colorido) estampa o seguinte aviso em sua fachada: I will vote for Obama.

 

 

 

 

Benson Ufot é um nigeriano que trocou seu país pela América, como dizem os norte-americanos. Ele conta que veio aos EUA para estudar há quinze anos – o tempo lhe permite entender um pouco da política americana. Surpreso ao saber do meu interesse pelas eleições – how do you know we got elections around here now? -, ele aumenta o som do seu rádio. “Obama is the weakest candidate”, diz o locutor. Benson rebate. “Ele diz isso apenas porque o Obama quer melhor a vida da classe média e dos pobres”, afirma. Negro, Benson é um dos taxistas da cidade de Atlanta que possuem táxis amarelos. Há brancos e pretos também. “Eu vou votar no Obama porque ele sabe dialogar com as pessoas. É um diplomático. Se o Obama conversar com esse cara aí do rádio, em dois minutos ele fala outra coisa”, aponta. Benson explica que o seu país está em crise financeira porque o presidente George W. Bush gastou todo o dinheiro com a guerra do Iraque. “I’m tellin’ ya, a lot of people are voting for Obama. Whenever you get a republican president, he spend all the money in wars. People are tired of that”, diz. Saudosista, Benson lembra de Bill Clinton, ex-presidente de seu país, porque em seu governo as pessoas não tinham medo de gastar. “Elas tinham segurança. Hoje todo mundo segura o dinheiro”, suspira. A sensação é de que Benson, em vez de apostar na vitória de Obama, torce mais para que McCain, candidato republicano à presidência, não ganhe as eleições. “There you go! If McCain wins, we will get Bush all over again!”.

 

 

 

Em seu táxi branco, Angelique toma uma alternativa ao trânsito das highways, que parece ficar pior de manhã e aos finais de tarde. O trânsito, aliás, é motivo para que Angelique, norte-americana de cor negra cujas unhas são enormes, nascida em Chicago e ex-residente do Tennessee, fique verborrágica. A começar pelo traffic rage, termo usado por ela para designar o estresse pós-trânsito. “Para acabar com o trânsito, o governo tem que intervir mais. Você é solteiro? Então não pode ter um carro grande. Só pode ter carro grande que consome muito combustível quem tem mais de doze filhos! Controla o trânsito e polui menos”, dispara. Para ela, se há carros demais em Atlanta, o transporte público é escasso. Há dez anos, conta, a prefeitura quis ampliar o Marta (Metropolitan Atlanta Rapid Transit Authority) aos bairros mais distantes da cidade. “Os moradores não quiseram, ficaram divididos por uma história de que ia aumentar a criminalidade com o meio de transporte, e os governantes não fizeram nada. Hoje está todo mundo lá pedindo o Marta pra vir trabalhar”. Soa ridículo, falo a ela. “Thank you!”, ela berra, como se esperasse uma réplica há anos. Políticos não são ruins só em seu pais, diz Angelique, eles aprenderam com um mestre. Todos eles beberam da mesma fonte. Digo a ela que fico imaginando qual seria a fonte, e ela ri. “A maioria dos políticos são homens. Vou te contar uma coisa. Há sempre um homem querendo roubar meu lugar na fila, no meu ponto de táxi. Hoje, pela primeira vez, um deles, ao ouvir que eu não sairia do lugar em que estava, me peitou. Eu tive que chamar a polícia. Se eu estivesse em Chicago, teria saído do carro e metido porrada nos dois. Mas eu não quero ser presa, não é?”, conta. Ao chegarmos em downtown, o trânsito diminui. “Em downtown só há vias de mão única. Foi a maneira que eles encontraram de diminuir o trânsito. Por isso é tudo vazio, assim”. Naquele momento, na avenida em frente ao Georgia Aquarium, não havia carros. “O que eu mais pego de passageiro é homem que me diz que eu deveria estar em casa lavando e passando. Nós ainda temos isso na América”, reconhece.

Abril 25, 2008

As almôndegas

 

Na fila do açougue do supermercado, ali, na Teodoro Sampaio, uma senhora que vai fazer setênta e um anos (assim ela pronunciou sua idade) pede um quilo de músculo. Olha para o açougueiro, com aqueles olhos de gente idosa que não enxerga e franze a testa, franze também os lábios para frente, e diz:

 

- Mas limpa isso direito, na segunda-feira eu vim aqui e você me deu quatrocentos gramas e tava cheio de nervura, eu odeio nervura, entendeu?

 

Não satisfeita com a reação do açougueiro, ela olha para mim. Magérrima, de cabelo na altura do queixo, a senhora veste uma calça jeans de cintura bem alta e uma blusa de algodão.

 

- Eu e meu marido não podemos mais comer músculo, acredita? Estamos com o colesterol alto. Passei a semana inteira comendo frango, eu não agüento mais comer frango. Mas ele gosta tanto de um caldo de músculo à noite, e não pode comer. Ô, moço, eu posso descongelar esse músculo? Porque tinha uma senhora aqui na segunda-feira que disse que não pode.

 

O açougueiro, já emburrado, diz que sim. Ela continua.

 

- Eu venho neste açougue há 32 anos! Deveria ganhar um prêmio por ano! Ele nem lembra que a porta era ali, ó, ali. Quantos anos você tem, ô menino?

 

Mais uma vez, o açougueiro grossamente diz que não gosta de ficar dando sua idade por aí. Ela não deixa barato.

 

- Dá a minha então! Dá a minha!

 

Após nos contar sua idade, ela revela que ela e a mãe, já falecida, são mineiras.

 

- Meu filho sempre que vai em casa pede pra eu fazer almôndega. Minha sogra, que é italiana, chama de porpeta. Eu comprei um quilo de carne moída pra fazer almôndegas, mas ele não apareceu nunca mais. Depois que os filhos casam, a gente fica sem vontade de cozinha, sabe? Fica sem ânimo mesmo.

 

Querendo se livrar o mais rápido possível da cliente, o açougueiro pergunta se ela quer mais alguma coisa, e fica aliviado ao ouvir a negativa.

 

- Às vezes, ele vem trabalhar no Butantã, perto da USP, e vem almoçar comigo e com o meu marido. Ele diz que vem meio dia e é batata! Meio dia ele está lá. Eu já disse pra ele me avisar quando vier pra eu congelar a carne…

Abril 16, 2008

Uma doença

O que acontece em São Paulo é que falar do trânsito significa disparar obviedades. Nos últimos dias, um taxista me apareceu com previsões apocalípticas, do tipo “são mais seis meses, estou te falando, seis meses e tudo vai parar”, como se fosse possível todos os carros pararem juntos, obedecendo a um apito. Outro colega de profissão, dono de um Meriva branco, andava pela Marginal Pinheiros numa sexta-feira às 21h, e desligou o motor. “Olha, eu vou te falar: está impossível. Eu chego num ponto que não sei mais o quê fazer”. Um terceiro, já cansado do congestionamento na avenida Luís Carlos Berrini, aconselhou-me a descer antes do destino. “Nem que seja pra você ir a pé, moça, tá mais fácil”, soltou, ignorando o próprio ganha-pão.
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Em São Paulo, há 3,4 milhões de carros, 131 mil caminhões, 127 mil caminhonetes, 26 mil micro-ônibus, 319 mil motos, 49 mil scooters e 33 mil ônibus, de acordo com o IBGE (2004). São 3,4 automóveis contra 60 mil ônibus e micro-ônibus - o transporte público, que engloba também o metrô e os trens, não dá conta das 13 milhões de pessoas que habitam ou trabalham nesta cidade. A equação tem um resultado simples: uma gota de chuva é motivo para a rua Teodoro Sampaio parar, e um carro quebrado desliga os motores dos carros que passam pela avenida Rebouças.
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São Paulo está tão fragilizada que foi embalada por uma neurose. Já existe até uma rádio dedicada ao trânsito, chamada SulAmérica. A vinheta, ouvida pela metade, já mostra a que veio: “…motorista que segue na Alfonso Bovero..Cobertura completa nos principais pontos da cidade, na hora que você mais precisa”. Não é difícil imaginar paulistanos com os ouvidos grudados no rádio, esperando a próxima dica, a próxima saída, a próxima solução. Como se uma informação, um caminho alternativo ou uma troca de ruas fosse solucionar o caos da cidade – se não de vez, pelo menos naquele horário de pico. Há paulistanos cada vez mais acostumados ao barulho da buzina e ao cheiro de escapamento. Cada vez mais temerosos e mais inseguros, já que na semana anterior, saíram de casa às 22h e enfrentaram congestionamento ali, na rua de trás, perto do shopping novo, o tal Bourbon. “Uma cidade em que as ruas são sufocadas pelo tráfego e os pedestres são sufocados pela fumaça”, anunciou a revista Economist, sobre São Paulo, há um ano. Faltou descrever o estado de espírito de muitos habitantes, que, cada vez mais insatisfeitos, esquecem que sua cidade é sinônimo de emprego e dinheiro, como disseram os taxistas, e repetem como um mantra: trânsito, trânsito, trânsito. 
(Em tempo: a UOL fez um especial sobre o trânsito, com o título “Trânsito caótico gera e potencializa o estresse em São Paulo”).

Abril 8, 2008

Os vizinhos

 

No prédio em que eu moro, há doze apartamentos. Todos têm um dormitório relativamente grande, uma sala, um banheiro e uma cozinha. O espaço em si é ótimo; abriga sem grandes problemas duas pessoas, como é o meu caso. O prédio é um tanto antigo – diz o cara da imobiliária que tem mais de sessenta anos – e está localizado numa rua que traz edifícios similares a este, enfileirados e ajeitados num reta só. Só há uma diferença entre o nosso prédio e os outros prédios: por fora, o nosso parece um cortiço. Preto, não vê tinta há uns bons dez anos. Diferentemente dos outros, que já contam até com cerca elétrica, nosso prédio tem apenas dois mecanismos de defesa: um muro de menos de meio metro de altura, todo pichado, e uma porção de plantas que nem sequer espinhos têm. Assim, todos os dias somos obrigados a empurrar os meninos do colégio da frente, que, teimosos, sentam em frente ao portãozinho minúsculo para fumar um cigarro, namorar, e, pasmem, fumar um baseado. Na última semana, quando fui pedir educadamente para que um deles saísse da minha frente e me deixasse passar, fui obrigada a ouvir a seguinte resposta:

 

- Pô, tia, cê tá folgando, hein?

 

Eu, que nem nos vinte e cinco cheguei, fui taxada de “tia”. Mas não mencionei os assaltos: domingo passado mesmo, vimos um ladrão furtar o rádio do carro de um morador do nosso prédio, levar o objeto e ainda dar um tchauzinho para o dono do veículo, que percebeu o furto tardiamente. Irritada com a sucessão de acontecimentos que descrevi, resolvi fazer alguma coisa. Já estava por dentro do jeito ‘brasileiro’ que o pessoal lá da imobiliária – e por extensão, os donos do prédio – tratam o problema reforma. Sinônimo de gastar? Nada feito. Pois bem. Eu, que não tive tempo de me articular no prédio porque acabei de mudar, resolvi organizar um abaixo assinado em letras garrafais pedindo, com urgência de quem já morreu, grades na frente do prédio. Que não seja pela estética, seja pela segurança: alguma coisa vai ter que acontecer. Assim, chego ao que queria relatar inicialmente: hoje passei de apartamento em apartamento, recolhi assinaturas, e ouvi algumas histórias. A Dayse, por exemplo, do 2C, convidou-me para entrar. Enquanto brincava com seu cachorro, ela me contou que quando mudou, a imobiliária prometeu uma pia nova, já que a então disponibilizada estava suja de lodo. Podia ter esperado dormindo. Nunca recebeu a pia, como não recebeu a pintura à mesma época da mudança: foi obrigada a pagar tudo do próprio bolso. A Adriana, do 3B, é uma portuguesa jovem – deve ter a minha idade – que veio ao Brasil estudar. É gostoso ouvir seu sotaque. Adriana me conta que fica com medo todos os dias, quando volta do Pão de Açúcar cheia de sacolas, e chega no prédio descoberto, sem uma proteção. E que fica indignada ao saber que com a metragem de seu apartamento, não teria que pagar IPTU. Explico: nosso prédio tem registro de casa na prefeitura, não de prédio com vários apartamentos pequenos. Então, os donos simplesmente dividem o valor total do IPTU da casa pelos doze locatários.

 

- Ora, mas que absurdo!

 

A frase é proferida com o sotaque que, obviamente, não consigo reproduzir. Eliane, minha vizinha, do 1C, não é de falar: pega o papel, pede para ler, e bate em minha porta algum tempo depois, dizendo que assinou. E que concorda com tudo: grade, segurança, meninos da escola invadindo nosso quintal. Minha outra vizinha, da frente, Dona Sônia, do 1A, tem sobrenome francês, mas sua letra não me permite contar qual é. Esbraveja comigo, dando graças a minha presença no prédio, porque alguém precisa ajudá-la na briga com os locadores. Está cansada de falar sozinha. Para onde vai o dinheiro do condomínio?, pergunta-me. Entro na conversa e fico indignada ao saber que meu colega de profissão, que não conheci mas já ocupou o meu cargo na revista em que trabalho, e morou no mesmo apartamento em que moro, colocou até os advogados no meio.

 

- Eu tô falando pra você, o Faoze não agüentou de brigar!

 

Dona Sônia reclama particularmente do zelador, cujo salário é pago com o condomínio que pagamos: ele mal fica no prédio. Nem receber suas encomendas de Israel ela pode, veja se isso é possível? Aproveitando o momento, dona Sônia me conta também que o zelador recebe vale-transporte todos os dias, mas que dorme no muquifo do fundo do prédio porque está, diariamente, muito bêbado para pegar um ônibus.

 

- É o emprego dos sonhos, o dele!

 

Às 20h35, depois recolher 70% das assinaturas, percebo que todos têm reclamações a fazer. Todos temem a falta de proteção, o desleixo com a fachada, o dinheiro que some na mão dos donos. Todos trabalham para pagar o aluguel em dia e não entendem como não têm direito a uma grade no prédio em que moram. Todos desabafam. É preciso pouco, muito pouco, para os leões saírem de dentro da gente. Mas no final das contas, a impressão que tenho é que de certo jeito, minha visita aos apartamentos me fez ver o prédio – por uma hora, talvez  – não como um cortiço preto, sujo e público. Sabe-se lá como, ele meio que tomou vida.

 

Abril 2, 2008

As crianças de Americana

 

Americana fica a quinze minutos de Campinas, no interior de São Paulo. É uma cidade que começa como Pindamonhangaba e Bragança Paulista (e talvez mais outras, que desconheço): uma longa avenida, com duas mãos, cujas beiradas são uma seqüência de árvores entre canteiros. Essa paisagem leva ao centro, que traz uma praça movimentada com camelôs abarrotados (como réplicas dos que existem aqui do lado, na Teodoro Sampaio), um terminal de ônibus e um restaurante que oferta, como aponta o aviso pintado sobre seu próprio muro, uma carne de natal: tender. O centro de Americana também oferece a seus habitantes uma loja da marca surfista Rip Curl, uma agência dos Correios e uma pizzaria chamada Cillos. Esta última é localizada na mesma avenida Cillos.

 

Outra atração de Americana, observada por uma viajante de um dia, é o shopping Welcome Center, ou “uécômi centerrr”, nas palavras de um dono de uma concessionária de carros local. O tal centro de compras abriga, curiosamente, um cinema vintage, que remete à década de 50, um parque de diversões aparentemente mal-assombrado com uma piscina de bolinhas, uma loja Hering e uma série de restaurantes dos quais apenas dois estavam abertos para o almoço. Outra coisa que impressiona em Americana são os viadutos. Logo na entrada, já há um. São muitos para uma cidade do interior, que dispõe apenas de 134 km2.  Há, claro, palavras peculiares e específicas em Americana. Para chegar ao Ciep Cidade Jardim, recebemos sempre a mesma indicação de donos de mercado, pedestres, atendentes de bar e lixeiras: passando o viaduto, depois do terceiro sinaleiro, ali. Sinaleiro, para quem mora naquela cidade, é o famoso sinal ou farol - para quem mora na capital. Há outra denominação para ‘bolinhas de gude’, que aprendi com as crianças do mesmo Ciep Cidade Jardim, mas agora não consigo lembrar o termo exato.

 

Afora os detalhes apontados, as crianças de Americanas são iguais as de São Paulo ou de Tocatins: todas te chamam de tia, correm para um lado e para o outro, berram, assistem televisão no intervalo das aulas, brincam de massinha e de criar fantoches e, claro, buscam desesperadamente seu lugar numa foto.

 

(Foto: Gustavo Morita)

Março 13, 2008

Rodolfo

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- Ele não gosta mesmo de mim.

 

 

 

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O desabafou ecoou não como um lamento, mas uma constatação: para Rodolfo, a figura dele inspirava apenas vagas lembranças, talvez nunca completas, de um convívio triturado pela indiferença e pela arrogância. Há vinte e quatro anos, Rodolfo lidava com suas idas e vindas, e há exatos vinte e quatro anos aprendera o que era passível de espera e o que não era. Finalmente chegara à conclusão de que, quando ele é o assunto, nada pode ser esperado – apenas ignorado. Muitas eram as justificativas que passeavam pela sua cabeça, mas no fundo, no fundo, Rodolfo sabia que nenhuma delas era plausível. Todas simbolizavam uma mágoa que, no fim, apenas escondia uma verdade: ele era assim, e nada o faria mudar. Nem mesmo a morte.

 

Aceitá-lo era pedir demais; o máximo que Rodolfo conseguia fazer era perdoá-lo. Um perdão distante, de quem não entende, mas releva. Quando Rodolfo me contou pela primeira vez sua história com ele, pensei que estava tomado por revolta. Não era possível, pensei. O tempo nos proporciona o melhor óculos nesse mundo. Aos poucos, ele mesmo foi repetindo suas atitudes grotescas, como nos episódios que me foram relatados, e mesmo sem convivência nenhuma, entendi como Rodolfo se sentia em relação a ele. Naquela altura, o que irritava Rodolfo era o desprezo, o desmerecimento e a prepotência. Disse a Rodolfo um dia que não podia se enxergar como igual a ele; havia (e ainda há) uma diferença tão grande entre os dois, que só não é confirmada pela semelhança física. Eram iguais, fisicamente falando. Era uma das poucas coisas em que Rodolfo pensava sobre ele: como eram parecidos fisicamente! Para mim, essa é uma coincidência bizzara elaborada por mãos divinas.  

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Rodolfo não parecia triste, tampouco irritado. Minutos depois de proferir a frase com a qual abri este relato, fez uma piada. Talvez – e aqui entro no terreno das suposições – Rodolfo sempre que pensasse nele, lembraria de si mesmo, um menino de seis anos com mochilas sentado no sofá, esperando. Talvez não. Talvez ele seria uma fraca lembrança, e algum tempo depois, pó. Há, entretanto, uma última possibilidade: a de que, de tanto errar, ele se resumisse, para Rodolfo, numa das coisas que (tenho certeza) ele próprio odeia: no fim das contas, ele se tornaria apenas um previsível.

Março 5, 2008

Edite

 

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Naquele dia, Edite vestia uma blusa vermelha e uma calça branca. Sua sandália branca tentava amenizar, juntamente com as unhas vermelhas, os calos dos pés. As unhas das mãos também tinham sido pintadas de vermelho, mas já estavam vencidas. Seu batom acompanhava a coloração das mãos, pés e roupa, mas se misturava com o branco dos dentes conforme Edite ia falando – o que acontecia, invariavelmente, de dois em dois minutos. No momento em que sentei na cadeira à sua frente, ela lembrava, por exempo, do dia em que participou de um concurso na 4ª série: quem na sala era capaz de desenhar a bandeira do brasil mais bonita? Edite recordava que a sua bandeira tinha ficado infinitamente melhor que a da sua prima, a vencedora escolhida pelo professor, e que o resultado só foi aquele porque o professor sentia preconceito por ela. Edite é negra. Ela conta que, no dia seguinte da entrega do prêmio – uma nota dez, se não se engana –, chegou ao lado do professor e disse: “olha, eu só não ganhei porque você acha que eu sou negrinha, e isso não está certo”. Edite morava no interior da Bahia, e veio para São Paulo fugida dos pais. “Eu não era fácil, gostava de ter muitos namorados, acabei vindo mesmo”, lembra. Durante os trinta minutos que passamos juntas, Edite também chegou a me contar a história de uma cliente que, por incompatibilidade de horários, fez as unhas com outra manicure, e reclamou. “Não adianta, você se acostuma com a manicure, é difícil trocar, filha”, setenciou. Contei a ela que tinha sido destratada pela última manicure e que agora procurava alguém que me entendesse: simplesmente não consigo ser sempre pontual, já que uso meu horário de almoço para fazer as unhas. “Comigo você não vai ter esse problema”, disse-me, olhando para o alicate que tirava minha cutícula, “se precisar atrasar, mudar de horário, olha aqui meu celular, é só me ligar”, assegurou-me. Achei que, finalmente, tinha encontrado uma manicure. Melhor: tinha encontrado uma fonte fiel de histórias reais, de histórias que aconteceram na Bahia, de histórias de uma Edite jovem recém-chegada em São Paulo, de histórias de uma Edite senhora, já vivenciando aqueles que, quem sabe, seriam seus últimos dias de vida. Na semana seguinte, marquei um horário para fazer as unhas com Edite às 13h, e cheguei dez minutos atrasada. Edite não me atendeu. Não fui mais. Passei a descer a avenida Cardeal Arcoverde sem passar os olhos pelo salão chinfrin onde Edite ainda trabalha. Parou-me outro dia na rua. Queria saber se estava brava com ela. “Não”, respondi calmamente, “eu simplesmente não me acostumei com você”.

Fevereiro 29, 2008

O silêncio que se impõe

29 de fevereiro, 8h44, celular toca.

- Alô?

- Oi, você lembra da menina que você conheceu na estação Tietê?

- Oi, bom dia, claro! É a mãe dela?

- Sim, desculpa eu estar te ligando. Você tentou me mandar aquela foto por celular, e eu não consigo abrir, você me manda, por favor?

- Claro. A Graziele está bem?

(silêncio)

- Ela faleceu. 

(silêncio)

- Foi atropelada em Brasília, pra onde a gente estava indo naquele dia. Foi arrastada 50 metros no chão. Eu vi tudo. Minha única filha. Vi minha filha morrer. Eu estou muito ruim, muito ruim mesmo.

(silêncio)

- Meu Deus!! Eu não sei o que dizer pra senhora. Meu Deus. Eu não estou entendendo direito…como isso aconteceu?

(silêncio)

- Você manda a foto pra mim? Eu queria ver…

- Mando, lógico…eu ligo pra senhora pra pegar o endereço quando ela estiver pronta, tá? E, nossa. Fique bem! Não sei mesmo o que dizer…

- É, eu também não. Obrigada por me atender.

- Eu ligo pra senhora….fique bem..

(silêncio)

(silêncio)

(silêncio)

O silêncio que não faz entender o que, no plano do que se sente, mesmo por alguns segundos, simplesmente não poderia ter acontecido.

Fevereiro 23, 2008

Da preguiça (e de Belzebu)

“Falar é fácil. Fácil ou difícil, com ou sem pecado, fora com a diabólica preguiça. Tudo para evitar a avaliação ruim, o risco do desemprego e a falência da educação. E que não seja por medo do Belzebu, também conhecido como Rabudo, Tinhoso ou Aquele que Nunca Ri, o Supremo Preguiçoso: a toda hora caem nos braços dele pencas de pecadores sem que ele faça nenhum esforço.
 Um horror.”

Parte do texto do Josué Machado que acompanhou o meu (ou o contrário, provavelmente) na edição da Educação desse mês.